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Crónica: O Enamoramento

Gostava de partilhar convosco o meu enamoramento por Mr B. É um pouco estranho falar convosco sobre o meu caso, quase íntimo. Quando o abordei, pela primeira vez, ele só falava inglês e castelhano, também por isso demorei vários meses a perceber o que Mr. B. dizia. Ele não se calava. Tudo o que dizia afetava as minhas crenças e até o meu sistema de valores. Mesmo assim continuei a ouvir o seu discurso. Na minha cabeça só cabia a palavra estafermo. Hoje ouvi esta palavra e gostei.

Um dia, recebi um email de Mr B. a convidar-me para beber uma cerveja e comer tremoços numa esplanada de praia. Apesar de contrariada aceitei o convite, pois recusar um desafio é contrário à minha natureza. Mr B. trocou o Discurso Elaborado por Miúdos, foi nesse momento que me deixou enamorada. Não falava do Santiago Maria, da Maria Carolina, nem mesmo da Maria Ana _ os meus miúdos. Falava do Nan**nho, filho de uma mãe guineense que o manda lavar o sovaco com limô (não é limão, é limô).

Bernstein falava do discurso, de como a sala de aula, que se diz democrática, tem uma natureza contrária. E isto é desconcertante! A sala de aula tradicional, com um professor, pode ser mais inclusiva? Pode. O terrível quadro negro pode ser mais inclusivo do que a uma Aula Invertida? Pode. No meu escritório, olho para uma gravura assinada por um pintor e lembro-me de tantos pode.

Creio na importância dos Professores com inteligência emocional que vejam além do “Nan**nho que é bonitinho”, palavras dele. A este propósito, merece ser reparada a escultura de Joana Vasconcelos – os padrinhos nestas coisas ficam fora. Que rosto se esconde atrás desta grande máscara?

Agora vou dar beijinhos de boa noite, já estão a reclamar e os casos de enamoramento devem ser sempre segredo. (É das coisas que mais estranho, tantos meninos que usam lacinho na cabeça e que nunca recebem um beijinho de boa noite).

Ana Sofia António . Professora da ESEL, IPLUSO . Investigadora Integrada do CeiED . 26 de junho de 2022